Poesia iconoclasta
Beto Queiroz*
“e a lira rebelde só cantos de amores
me quis entoar.” (Anacreonte)
Decúbito dorsal o poeta pratica todo dia –
de frente p’ra lua o bardo se volta. Deitado vislumbra,
olhando as nuvens e as estrelas – a cabeça vazia;
o mundo voando desajeitado, nu sonha à penumbra.

...Vai a galope poema afora...
Com medo de tudo o bardo é albatroz desajeitado;
um cisne manco, um pato silvestre – um idiota de
família, a mais antiga – a dos que nada têm em conta
senão um verso novo, um chiste, uma boutade...
Mas há de prestar contas ao senhorio, ao editor
à família. Todos querem a cabeça do poeta: o pato
selvagem – só e nu. Transido de frio sonha ser autor.
Precisa, pois, a taça vazia erguer neste ato.
...Vai a galope poema afora...

O poeta precisa de um guia, de um amigo que o salve
neste inferno em que se encontra – como Gerardo Melo,
o Mourão – sua verve encontrou distante embora tarde.
E o Ascenso que nunca deixou da infância o engenho: selo
De sua poesia feita de canaviais e sonoridades miscegenadas.
“Os engenhos da minha terra/só os nomes fazem sonhar...”
da moenda continuamente girando verte a sacarose mítica.

...Vai a galope poema afora...
- Vi o René Char e seu rio – o Douve com seu mistério
de outro – o Guaíba de Meyer, o Capibaribe de João Cabral
e até mesmo o pobrecito córrego Botafogo do Ramos Jubé.

Não importa: todos quedam em decúbito dorsal – supino ao rio
de imagens e metáforas – todos revivendo os que se foram...

Houve o Zé Godoy e seu rio do sono – o Araguaia
Houve o Susquehana, rio que cruzei inusitado, fundo.
E o riozinho de minha aldeia que não é nenhum Tejo
feito o de Alberto Caieiro – donde se vai ao mundo.
Houve o Augusto dos Anjos que a nenhum rio cantou
e esperava cruzar o rio final com um Caronte gentil.

O poeta que a tristeza cavalgou e nenhum cão o superou
sutil; na hora sexta reservou sua prece ao Senhor e partiu.

...Vai a galope poema afora...

Enfim, o poeta hoje sem prece, sem fôrma, sem forma fixa
o que se perdeu de sua família – é um cavalo a mirar o vazio
mas não ao mundo não deve ceder sua pena – evita o vazio
o canto único de moderno Anacreonte – que a lira rebelde entoa.
...Vai a galope poema afora...

E o outro precipício – este abismo! cá de baixo donde suporta
ouvir o grito de outro abismo – evita o eco deste abismo!
a alma que aqui vaga quer sonhar com o celeste destino.
...
E a lira rebelde o bardo sufoca – como se só sua voz
cantasse o único canto que o galope o faz cavalgar.
Não é ele, entanto, quem canta – mas outra voz
que o canto vazio em sua garganta faz entoar...

...Vai a galope poema afora...

E cá continuamos em decúbito dorsal para o céu da Poesia.
./.
(*)Drafts de poema, 2017 (ii).

Poesia iconoclasta ou a lira r

by adalbertodequeiroz

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